Blog da Perestroika

terça-feira, 10 de junho de 2008

QUEBRANDO O GELIX

Vocês já pararam pra pensar como a gente é treinado para ser neutro e indiferente?

Acho que a gente acaba levando o conselho "Não fale com estranhos" a sério demais. Ou pelo menos, longe demais. Quando a gente tem 20 anos (ou 30) já deu tempo pra entender quem são os estranhos inofensivos e os estranhos realmente estranhos.

Por que tem tanta gente que é tão articulada na hora de brigar no trânsito por causa de uma freada mais brusca, ou uma demora um pouquinho mais longa na hora de arrancar o carro na sinaleira, mas que não consegue manter uma conversa trivial, olhando nos olhos do interlocutor, nos 20 segundos que separam o percurso do elevador entre o térreo e o sétimo andar?

E na real, a gente passa por um monte de situações de convivência com estranhos ao longo do dia, todos os dias. No elevador, na fila do banco, na sala de espera do cabelereiro, no supermercado, na espera da esteira de bagagens do aeroporto, sentado no cinema, esperando o filme começar. Exemplo é o que não falta e vocês já entenderam o que eu quero dizer.

O que eu acho estranho mesmo é que a gente opta ficar meia-hora passando as páginas de uma Veja de dois anos atrás enquanto aguarda a chamada do dermatologista ao invés de puxar um assunto com a outra pessoa que está esperando. Será que a gente prefere isso? Ou só opta por isso?

Um tempo atrás, eu decidi testar minhas capacidades de relacionamento interpessoal. Foram 3 experiências bem pontuais, e quase científicas, no sentido em que eu estava realmente querendo testar o que aconteceria se eu fosse um pouco mais despachado. Juro que a partir dessas experiências, passei a mudar alguns comportamentos no dia-a-dia.

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NO AVIÃO

Estava indo para SP e peguei a poltrona do meio. Muito apertado. Sentei ao lado de duas mulheres. Elas não eram bonitas nem nada. Não era o meu foco. Mas decidi que até o final da viagem a gente ia ter quebrado o gelo.

Comecei pedindo papel e caneta (o que eu realmente precisava, para anotar algumas idéias). Uma me emprestou a caneta, a outra, o papel. O papel era um bloco desses de hotel. Pronto: perguntei se ela tinha ficado naquele hotel e a partir daí comecei a puxar o assunto, se estava voltando do feriadão, onde trabalhava, em que área, etc.

Depois, vi que a outra mulher estava lendo um dicionário de inglês. Aí, eu fique lendo descaradamente o dicionário com ela, sem fingir que não estava olhando. Quando ela deu aquela olhada pro lado, eu disse: "Desculpa atrapalhar a tua leitura. Tu está viajando para o exterior?".

Buena, fiquei sabendo da vida das duas pessoas. Uma ia pra San Diego e era dona de uma creche. Era pedagoga. A outra trabalhava na área contábil da Ambev e passava a semana toda em São José dos Campos e os finais de semana em POA. Fomos daqui a SP conversando um monte. E o legal é que a quebrada de gelo fez com que as duas mulheres começassem a conversar entre si e gerou um clima superdescontraído na nossa filinha ali.

E o melhor de tudo: eu consegui colocar os dois braços nos apoios (decansa-braços) sem nenhum constrangimento.


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NO SUPER

Eu estava passando na parte de limpeza e vi um casal às voltas com qual amaciante levar. Eles acabaram colocando dentro do carrinho um amaciante que eu já tinha comprado outra vez, mas que era uma porcaria, não rendia quase nada.

Eu poderia ter passado e não ter dito nada. Já tinha passado por diversas situações parecidas e nunca me meti. Cada um com seus problemas. E quase não disse nada mesmo. Mas de última hora, meio de impulso, me intrometi:

"Bá, olha só, desculpa me meter, mas eu ouvi vocês conversando. Esse amaciante blá blá blá. Indico esse aqui. Ele é mais caro, mas vai durar mais tempo e olha o cheiro (nesse momento, abri e botei no nariz da mulher)".

O casal ficou super surpreso. Mas de um jeito bom. E começou a conversar comigo e acabou realmente trocando o amaciante.

No final, eu estava procurando um caixa para entrar, estava com poucas compras. E o casal me chamou para entrar na frente deles (não furei, não tinha ninguém atrás deles).

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NA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

Ontem teve reunião de condomínio. E eu tava com uma larica imensa. Vasculhei em casa e encontrei um ovo de Páscoa guardado. Cheguei na reunião e disse "Trouxe um docinho pra gente."

O que posso dizer é que nunca houve uma reunião de condomínio tão simpática. Todo mundo ficou comentando a história do ovo o tempo todo. E vinham pegar e diziam "Boa idéia essa do chocolate".

Moral da história: a partir de agora, o condomínio vai comprar uns sucos e bolachinhas ou armelins, totosinhos e afins para deixar as reuniões menos enfadonhas.

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Os 3 casos acima são reais. Os 3 casos foram momentos onde eu decidi deliberadamente quebrar o gelo em situações sociais geralmente adversas ou neutras. Nos 3 casos, houve um benefício, uma recompensa prática - embora não fosse o objetivo - como reação à minha simpatia.

Podem dizer o que quiserem. Mas eu, hoje, tenho certeza que isso se trata do poder da comunicação. Acredito que estranhos são apenas desconhecidos. E que geralmente, as pessoas estão a fim de interação. Ser um pouco mais solto, mais pró-ativo, mais sociável, mesmo com pessoas que a gente ainda não conhece é uma experiência bem interessante. E nos faz destravar. Perder a vergonha.

Esse é o tipo de aprendizado que vai ser bem útil quando você for fazer uma entrevista de emprego, apresentar uma idéia para o diretor de criação, negociar um feriado com o chefe, conversar com o cliente.

Por isso, desafio que cada um de vocês faça a experiência na prática. E depois comente aqui, para dizer o que achou.

11 comentários:

! \< & disse...

Bah, eu sofro com relacionamentos... tenho sérios problemas de conhecer e fazer novas amizades...

Mas sempre que viajo, de ônibus, para santa rosa, a primeira coisa que faço, é perguntar o nome da pessoa que senta ao meu lado. Sabe, pô, a oibnta vai passar 7 horas ali do meu lado. qq custa se apresentar?! Jah rendeu coisas bem boas desse "quebra gelo"... ehehhehe. As vezes a pinta se sente tao bem, que diz: "por mim não precisa abaixar o "puta merda do banco", só se você fizer questão...

é amigos da rede globo, conversando a gente se entende...

esse texto é teu, felipe?!

! \< & disse...

oibnta=pinta...

Gabi Elias disse...

hahahahaha
o "puta merda".

Bah! O Pla, muda esse nick feio aí. ^^

Kroeff disse...

Em que língua? uaehaeuh Outro exemplo que fica claro o distanciamento é nos ônibus que não tem lugar marcado, os t9 e assemelhados. Tu entra ali, e tem só uma guria sentada, mais ninguém no ônibus. Se tu sentar do lado dela, ela via gritar estrupador, imbecil, chupador de dedos!
Todo mundo sempre senta nos lugares vazios primeiro, só depois é permitido compartilhar.
Beijotchau

Kroeff disse...

Ah! E esses dias eu tava tocando a viola no ônibus de volta da aula de áudio, e uma guria no banco da diagonal tava olhando pras notas assim. Só sei que no fim ela tava me ensinando umas músicas. Pelada. aeuhaeuhae tá o resto é real.
Beijotchau

! \< & disse...

Outro exemplo estrúxulo.

Esses dias tava indo de t9, pra puc, e milagre, estava praticamente vazio. mas, como passo o dia inteiro trabalahndo sentado numa cadeira, resolvi ir de pé. As pessoas me olhavam com umas caras mto estranhas, tipo.. meu... qq tu ta fazendo, tem bancos!

só p quebrar o gelix...

:)

ah, e quanto ao meu nick, tem gente que gosta... olhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Let's disse...

quando viajo de avião, é batata...
sempre sento do lado da pessoa que morre de medo de avião... aí, claro, elas sempre puxam papo comigo, querendo segurar a minha mão na decolagem ou no pouso... no pouso é mais certo, pois já tem uma intimidade maior, hehehehe...

fora que eu devo ter cara de quem trabalha no "informações"... as pessoas sempre me perguntam onde é tal rua... impressionante!

Gabi Elias disse...

Já contei a do taxista?

Tá, fui pegar o taxi terça depois do inglês pra ir pra agência. Sempre chamo um lá do curso mesmo pra não ter que esperar na rua e pegar com qualquer um. Eles normalmente são tri sérios, só perguntam o endereço e a rua que entra.

Mas esse louco aí, meu Deus, não calou a boca. Na real ele que tentou quebrar o gelo, né.

Terça tá um frio do caralho e ele me contou q tinha ido jogar futebol na noite anterior com os parceiros, insistiu que tava frio, que às 21h era tarde pra uma segunda-feira de inverno, mas foram igual.

"Aí tive que tomar um copinho de cachaça antes, né. Só pra aquecer."

De repente largou uma:
- E tu moça, que esporte pratica?

Ai, fiquei até com vergonha de não estar nem na academia.

Mas até chegar no trab já tava rindo dos comentários e até me pilhei de fazer algum esporte.

Gabi Elias disse...

estava*

Marcelo Quinan disse...

Na época em que os funcionários do Mc Donalds nos abordavam com aquela pergunta "O senhor gostaria de um número 1 com um xis-filé-de-frango-egg-salada-bacon-presunto" e uma torta eu sempre respondia "SIM" pra ver a reação delas. Pra desprogramar mesmo. Eles nunca se lembravam do que tinham oferecido e isso sempre quebrava o gelo.

William disse...

Isso faz uns 5 anos:
Meus pais foram pra praia no carnaval e eu fui no dia seguinte pra lá tb. De ônibus.. pinga-pinga.. Era xangri-lá, só q eu sabia q em função de zilhões de caminhos q o bus ia fazer, levei meu vééio diskman..
Sentei no meu lugar lá no fundo e tinha uma guria lá do meu lado.. bonita e tals.. mas não muito..
Fui colocar meus fones e descobri q tava sem pilhas (é burr!).
Só q esses detalhes eu já ia comentando com ela... tipo.. "bah, trouxe uns cds".. "putz! to sem pilhas!"

Depois eu guardei tudo e começamos a conversar.. oq cada um fazia.. onde trabalhava e tudo mais.

No fim da viagem (que num ônibus direto duraria 1:30, durou mais de 4), acabamos combinando de nos encontrar e em seguida ela iria se tornar a minha história de carnaval daquele ano.


Moral da história:
Seja simpático. Você pode se surpreender com o belo sorriso alheio.