Blog da Perestroika

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A vida é ou não é a melhor referência?

Uma vez, eu e o Rafa fizomos um anúncio da Olympikus para a Void. Justamente por veicular na Void, a gente tinha que acelerar. Não podia ser um lance nerd.

O anúncio era só um tênis feminino, estouradão, e duas ilustrações, de um anjinho e um diabinho, feitas pelo Diego Medina. Os dois eram meio detonadões mesmo, bem subversivos, como o Medina curte.

O modelo era branco com detalhes em rosa, todo fófi. Então, para adequar ao público da revista, saíam dois balõezinhos de diálogo, um do anjo e um do diabo, dizendo:

(Anjo)
- Se você é virgem, use Olympikus Tube.
(Diabinho)
- Se você é virgem, eu sou a mãe do Badanha.

***

Essa peça me lembra aquelas situações em que a gente é tentado pela vagabundagem. Aqueles dias que, em vez de ter um anjinho e um diabinho, um em cada ombro, a gente está acompanhado por dois diabinhos.

Tipo quando a gente tem uma puta campanha para layoutar para o dia seguinte, 9h da manhã, e recebe um torpedo de uma gostosa que está sozinha em casa.

Ou quando a gente tem que entrar na madrugada trabalhando, mas lembra que tá rolando um puta jogão na TV.

Ou quando todo mundo fica metendo uma pilha para você ir na festa, mesmo sabendo que no outro dia tem que chegar às 6h na agência, para terminar de montar as peças que vão ser enviadas por Sedex.

E aí? Foda-se a agência, não é? A vida é a melhor referência, não é?

Médio.

A grande sabedoria aí está no bom senso. Ficar preso na agência não é uma coisa das mais legais. Mas, às vezes (e, às vezes, muitas vezes), é preciso.

Nessas horas, vale lembrar de um dos mandamentos que a gente apresenta no primeiro dia de aula.

"TRABALHAR EM PROPAGANDA É LEGAL, MAS É TRABALHO. E TRABALHO, DE VEZ EM QUANDO, É UM SACO."

Assim como é muito fácil pensar "Ah, é só um anúncio, não vou morrer se me demitirem, eu vou é curtir a vida", também dá pra pensar "Ah, é só uma mina, não vou morrer se perder essa FG, trabalho é trabalho".

O botãozinho de foda-se vale para os dois lados. Sobrevive na propaganda quem resiste mais vezes a essas tentações.

Eu lembro, com bastante nitidez, de deixar de ir em várias festas, enquanto alguns contemporâneos chutavam o balde de segunda a segunda. Na época, uns até me achavam meio CDF. E, talvez, olhando para trás, eu talvez estivesse sendo exigente demais com aquele Tiago, com que tinha só 18 anos na cara.

Mas com as coisas acontecendo na minha carreira, e as propostas, e os aumentos, e a visibilidade, deu pra ver que o essa nerdzice tinha um sentido.

Então, não usem esse bordão da Perestroika como álibi para a vagabundagem. Se querem sair, se querem ouvir os diabinhos, beleza. Não culpem a gente.

Culpem a mãe do Badanha.

7 comentários:

William Mallet disse...

dedonocuegritaria.blogspot.com

Anônimo disse...

Comeu alguém ou não comeu?

Anônimo disse...

Caras, venho bastante aqui e tenho visto que a discussão sobre horário de trabalho vem sendo a mais quente do blog. Mas acho, porém, que ela vem descambando para o grande perigo de tudo na vida: a generalização.

Trabalhar até tarde é necessário quando não há prazo. Se tu precisa terminar uma campanha, ou apresentar muitas idéias e tem o dia de hoje e a manhã de amanhã, fodeu: tem que trabalhar até tarde mesmo, virar a noite, atrasar o relógio do DC pra ganhar qualquer minutinho ralando.

Agora, se tu tiver 10 dias pra pensar, daí dá tempo pra ter 100 idéias, jogar fora, ter outras 100, 150. A coisa muda de figura, né?

Às vezes a gente se arrepende de ter ficado trabalhando - quando uma pessoa morre e a gente não conseguiu se despedir dela porque ficou trabalhando (acredite: pai, mãe, tios e amigos tão cagando pra nossa pauta quando eles precisam morrer), ou quando o teu casamento acaba, ou quando tu começa a beber e se drogar demais (eu disse demais) pra segurar a onda, ou quando o teu filho começa a andar, ou falar, e tu não vê por estar fazendo um anúncio (o pior é que a gente faz tudo isso na crença de que o trabalho é mais importante do que a vida).

Sem contar que propaganda é um pouco como futebol. Os bem-sucedidos são menos de 10%.
Tem gente que trabalha direito e até tarde todo o dia, mas não recebe propostas e nem aumentos. E outros que nem trabalham tanto e vão longe.

E existem também as diferenças entre as pessoas - somos todos macacos pelados, mas somos todos diferentes.

Tem gente que gosta de trabalhar todos os dias até tarde na agência. Tem gente que rende mais no ambiente desconfortável do escritório. Tem gente que adora pizza e não se importa de engordar e ficar feio com 20 e poucos anos. Tem gente que não gosta de ir pra casa e ter que agüentar a família.

E também tem gente que não gosta de ficar trancado na agência, mas não se importa de continuar trabalhando em casa. Não são poucos.

Acho que a gente trabalha com idéias, e as idéias não vêm obrigatoriamente se tu ficar trancado no escritório, ainda mais com as possibilidades que a tecnologia nos trouxe.

Trabalhar até tarde é normal e pode sim ser necessário. Trabalhar até tarde na agência é um anacronismo do qual a gente não consegue se livrar. Muitas vezes acontece por desorganização na operação, ou porque o atendimento não teve coragem de dizer para o cliente que precisa de mais um tempo para o trabalho sair bacana.

Eu tenho em casa um computador melhor do que na agência e meu dupla também. Tenho em casa banda larga de 6 mega e meu dupla também. Tenho em casa um filho e meu dupla também. Tenho em casa minha cerveja, minhas drogas, a comida que eu gosto e que não engordam tanto quanto pizza ou x. E sabe o que é mais louco: eu tenho idéias em casa.

Ok, não é nada que tenha rendido um leão até hoje. Mas, vamos combinar, desde a abertura da primeira agência de propaganda em Porto Alegre (faz tempo, talvez tenha sido a JWT), muita gente virou noites trabalhando e o único leão que ganhamos veio de uma idéia muito simples e sem briefing.

Bom, isso é só uma opinião de um leitor.

Não leva a mal.

Gabriel disse...

Cada escolha uma renúncia.

como disse o ike:

"agente perde um pouquinho agora pra ganhar mais ali na frente..."

E ficar até tarde ninguem gosta,
e deixar de fazer as coisas ninguem gosta, mas sçao escolhas!

Tiago Mattos disse...

Anônimo: antes de mais nada, gostei muito do teu comentário. É bom saber que tem gente inteligente e bem posicionada lendo o blog. Seja lá quem você for.

Concordo com boa parte do que tu disse (e até já comentei várias dessas coisas no Blog). Mas discordo de outra parcela bem significativa (que vou comentar aqui).

Agora, não consegui encontrar muita relação com o que tu falou e o que eu falei. Nós abordamos duas coisas diferentes.

O meu post, se tivesse que ser resumido, seria algo como:

"Não usem essa desculpa de que 'a vida é a melhor referência' para deixar um trabalho pendurado".

Só isso.

Talvez eu tenha te entendido mal. Ou talvez, a tua intenção tenha sido usar o meu post como degrau para emitir uma opinião.

Sei lá, só fiquei meio na dúvida. (Sou um macaco pelado, mas, depois de quatro cervejas, meu cérebro se parece muito com o de um macaco).

Voltando: se tu tem uma vivência em agência, como aparenta ter, já deve ter visto essa situação que eu comentei algumas vezes. É, na minha opinião, um erro que acontece com iniciantes e experientes. E que sepultou muitas carreiras de "gente que trabalha direito e até tarde todo o dia, mas não recebe propostas e nem aumentos".

Você não é só o que você é. Você também é o que os outros acham que você é.

Por sinal, esse é um outro equívoco que eu percebo. Muita gente acha que ser bom é só fazer um bom trabalho.

Na minha opinião, fazer um bom trabalho é obrigação. Ser bom é, além disso, cuidar dos horários, ser político, trabalhar a rede de relacionamentos, saber se posicionar, saber negociar, saber se mitificar, saber se vender, etc, ect, etc. Inclusive, saber extrair um aumento do seu chefe. Isso também é talento e isso faz de você um profissional melhor.

Quem não recebe muitas propostas, ou não tem capacidade de aumentar o salário com seu chefe, é porque, provavelmente, vale menos do que está ganhando (nada é mais forte que a Lei da Oferta e da Procura, na minha opinião).

A "prova real", nesses casos, é pedir demissão. Se você conseguir uma proposta melhor do que o seu salário anterior, realmente estava subvalorizado. Agora, se não conseguir, é sinal de que estava sendo bem pago.

Para não falar de mim mesmo, posso citar como exemplo o Felipe Anghinoni. Que, ao anunciar a saída da Live, recebeu ligações de várias empresas diferentes. Poderia escolher onde trabalhar e quanto ganhar.

Sobre a generalização: é evidente que muitas coisas que são ditas aqui são genéricas.

Se eu disser "é um saco ficar até tarde", é uma generalização (mesmo que isso represente o meu sentimento em 99% das vezes). Agora, tem vezes que eu gosto de ficar mais. E aí, eu vou ter que ficar fazendo ressalvas para tudo?

Acho que deixaria o texto chato. É, de certa forma, até subestimar a inteligência dos leitores. Inclusive a tua. Não te parece que a galera tem capacidade de abstrair isso?

Bom, fica aí o espaço para o debate. O Blog da Perestroika é hiperdemocrático e aceita qualquer tipo de opinião. A favor, contra ou nada a ver. Desde que, obviamente, seja minimamente civilizada.

Mas cara, de novo. Valeu por ter escrito. Concordo com muita coisa que tu falou. E se de alguma forma a minha réplica pareceu meio agressiva, já fique a desculpa antecipada. Posso garantir que não foi.

É que o texto escrito sempre mascara o tom do discurso.

Não leva a mal.

Abraço.
Tiago.

Marcelo Jung disse...

Eh a batalha diaria na vida do publicitario.

abs

Anônimo disse...

Concordo pra caralho com o que o anônimo falou, mas concordo com o Tiago quando diz que uma coisa não tem a ver com a outra.

Trabalhar em casa é afudê. Eu, por exemplo, tenho idéias pra caralho voltando da Azaléia (1 hora no carro, tb...). Estar fora do ambiente de trabalho é tri bom pra mim. Mas o fato é que cada um tem o seu jeito. O que QUALQUER um precisa ter MESMO é responsabilidade. E coisas ricas na cachopa para ficar ligando pontinhos.

Simples assim.
:)

E, pra mim, trabalha muito quem quer. Eu, por exemplo. Sinceramente, sei que é a minha opção. Enfim, é isso.

Márcio.